Da ficção à prática: a história da cirurgia robótica
A cirurgia robótica, hoje associada à alta tecnologia e precisão, tem origens muito mais antigas do que se imagina. Sua trajetória começa ainda no campo das ideias — e evolui, ao longo de décadas, até se consolidar como uma realidade na prática médica.
O conceito de “robô” e os primeiros passos
O termo “robô” surgiu em 1921, derivado da palavra tcheca robota, que significa “trabalho”. Inicialmente associado a máquinas capazes de executar tarefas repetitivas, o conceito só viria a ganhar aplicação prática na medicina muitos anos depois.
Com o avanço da computação, da automação e da realidade virtual, especialmente no final do século XX, abriu-se caminho para a incorporação dessas tecnologias na cirurgia.
Influência militar e da corrida espacial
Os primeiros avanços concretos na cirurgia robótica foram impulsionados por necessidades fora do ambiente hospitalar.
Durante conflitos militares, havia grande dificuldade em oferecer atendimento cirúrgico imediato em áreas de combate. Isso levou ao desenvolvimento da ideia de telecirurgia, permitindo que especialistas atuassem à distância.
Paralelamente, a corrida espacial também contribuiu significativamente. A necessidade de operar em ambientes remotos e extremos estimulou o desenvolvimento de sistemas de telemanipulação e telepresença, fundamentais para a evolução da cirurgia robótica.
Os primeiros sistemas robóticos
O uso de robôs em cirurgia começou na década de 1980. Em 1985, o sistema PUMA foi utilizado pela primeira vez em humanos, em procedimentos neurocirúrgicos guiados por imagem.
Na década de 1990, novos sistemas surgiram, ampliando as aplicações:
Robodoc®, voltado para ortopedia, especialmente em próteses de quadril
AESOP®, um braço robótico controlado por voz para manipulação da câmera laparoscópica
Evolução do conceito de automação para assistência direta ao cirurgião
Essas tecnologias iniciais já demonstravam vantagens como maior estabilidade e precisão.
O conceito “master-slave” e o sistema ZEUS
Um avanço importante ocorreu com a introdução do conceito master-slave, no qual o cirurgião controla remotamente os movimentos do robô.
O sistema ZEUS, desenvolvido no final da década de 1990, incorporou esse conceito, permitindo que o cirurgião manipulasse instrumentos cirúrgicos à distância com maior precisão.
Esse modelo marcou a transição da robótica passiva para sistemas verdadeiramente interativos.
Um marco histórico: a telecirurgia transatlântica
Em 2001, a cirurgia robótica atingiu um de seus momentos mais emblemáticos com a chamada Operation Lindbergh.
Nesse procedimento, um cirurgião localizado em Nova York realizou uma colecistectomia em um paciente na França, utilizando o sistema ZEUS. A operação foi realizada sem atrasos perceptíveis e sem intercorrências técnicas.
Esse evento comprovou, de forma prática, a viabilidade da telecirurgia em longa distância.
O surgimento do sistema Da Vinci
Paralelamente ao desenvolvimento do ZEUS, outra plataforma começava a ganhar destaque: o sistema da Vinci, desenvolvido pela Intuitive Surgical.
Introduzido no final da década de 1990 e aprovado pelo FDA em 2000, o da Vinci trouxe uma série de inovações:
Visualização tridimensional
Instrumentos com múltiplos graus de liberdade
Interface direta entre cirurgião e sistema robótico
Essas características permitiram uma integração mais intuitiva entre o cirurgião e a tecnologia, consolidando o uso da robótica na prática cirúrgica.
Consolidação da tecnologia
Em 2003, houve a fusão entre as empresas responsáveis pelos sistemas ZEUS e da Vinci, marcando um momento importante na consolidação da tecnologia.
A partir daí, a cirurgia robótica deixou de ser uma inovação experimental e passou a integrar, de forma progressiva, o arsenal da cirurgia minimamente invasiva.
Conclusão
A história da cirurgia robótica é marcada por uma evolução rápida e contínua, que partiu de conceitos teóricos e necessidades extremas — como guerra e exploração espacial — até alcançar aplicação prática na medicina.
Em poucas décadas, a tecnologia saiu do campo experimental para se tornar uma ferramenta consolidada, resultado da convergência entre engenharia, computação e cirurgia.
Referências
- Morrell ALG, Morrell AC, Morrell AG, Mendes JMF, Tustumi F, Oliveira-e-Silva LG, et al. The history of robotic surgery and its evolution: when illusion becomes reality. Rev Col Bras Cir. 2021;48:e20202798. doi:10.1590/0100-6991e-20202798.

