Em 2012, um programa brasileiro de treinamento em cirurgia robótica liberava cirurgiões para operar sozinhos depois de apenas cinco casos supervisionados. O critério, hoje reconhecido pelos próprios autores como precoce, ajuda a explicar por que a pergunta que atormenta residentes e hospitais brasileiros continua sem resposta fechada: quantos casos, afinal, tornam alguém pronto para operar com o robô sem tutoria?
Divergência confirmada pela evidência
Uma revisão sistemática publicada na BJS Open em 2021 avaliou 2.316 registros e incluiu 68 estudos, 49 deles com dados de pacientes, cobrindo dez especialidades. A conclusão foi de heterogeneidade substancial entre procedimentos e métricas, e apenas 17 dos 49 estudos, 35%, chegaram a quantificar a experiência prévia do cirurgião.
De 10 a 250 casos, dependendo do procedimento
Em urologia, uma revisão de 2023 com 97 estudos mostrou que a curva da prostatectomia radical robótica, medida por tempo operatório, varia de 10 a 250 casos; a da nefrectomia parcial, pelo tempo de isquemia quente, vai de 4 a 150. Para cistectomia radical não havia sequer estudos de qualidade suficiente para estimar uma curva. Não à toa, a prostatectomia radical é a técnica mais estudada da especialidade: uma revisão de 2021 na World Journal of Urology, sobre 47 estudos de cirurgia prostática, encontrou 30 dedicados a ela, contra 17 sobre sua versão laparoscópica.
O que diz o Colégio Brasileiro de Cirurgiões
No Brasil, a referência mais próxima de um consenso vem do Comitê de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica do CBC. Em nota de 2021, o comitê afirma que a curva de aprendizado robótica é longa, entre 25 e 90 procedimentos, mesmo para laparoscopistas experientes, e recomenda um mínimo de 10 procedimentos supervisionados antes da atuação sem tutoria direta, com revisão institucional posterior. O documento cita ainda um estudo sobre cirurgia colorretal com curva bimodal: cerca de 15 casos iniciais e mais 25 a 30 até a proficiência completa, atenuada quando o treinamento ocorre em serviço estruturado e de alto volume, com preceptores fixos.
Volume não é sinônimo de superioridade
Mais casos robóticos também não garantem resultados superiores à laparoscopia. O ensaio ROLARR, com 471 pacientes, não encontrou diferença em complicações, conversões ou qualidade oncológica entre ressecção anterior baixa robótica e laparoscópica. Um estudo observacional com 23.753 pacientes não achou diferença de desfechos entre nefrectomia radical robótica e laparoscópica, apesar do custo hospitalar direto cerca de US$ 3.000 mais alto na via robótica.
Enquanto essa literatura permanece dividida, o número de plataformas robóticas cresce em hospitais brasileiros, inclusive no SUS. A Resolução CFM nº 2.311/2022 já estabelece parâmetros numéricos: exige um mínimo de 10 cirurgias robóticas supervisionadas para que o cirurgião principal possa atuar sem o cirurgião-instrutor, e um mínimo de 50 cirurgias como cirurgião principal para que o médico possa atuar como instrutor ou preceptor. Na ginecologia, a Febrasgo também fixa critérios próprios, com mínimo de 15 casos acompanhados por preceptor e registro de ao menos 20 casos para certificação em cirurgia robótica. Ainda assim, esses números formais convivem com uma literatura internacional que mostra curvas de aprendizado bem mais longas para procedimentos complexos, o que sugere que o que a evidência disponível indica não é um número mágico, mas uma variável estrutural: a extensão da curva depende da qualidade da supervisão, do volume institucional e da disposição de medir, caso a caso, se a proficiência foi mesmo alcançada.
Referências
- BJS Open — 'Systematic review of learning curves in robot-assisted surgery' (2021) Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6996634/
- 'The learning curves of major laparoscopic and robotic procedures in urology: a systematic review' (2023) Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10389344/
- World Journal of Urology — 'Learning curves in laparoscopic and robot-assisted prostate surgery: a systematic search and review' (2021) Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00345-021-03815-1
- Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (SciELO) — Nota educacional do Comitê de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica do CBC (2021) Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcbc/a/kh76ZPgyVhfMmTPszPc7WBw/?lang=pt
- Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (SciELO), citando Syner et al. (2021) Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcbc/a/kh76ZPgyVhfMmTPszPc7WBw/?lang=pt
- 'Is it time for safeguards in the adoption of robotic surgery?' (PMC), citando o estudo ROLARR (2020) Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7032039/
- Resolução CFM nº 2.311/2022 (Conselho Federal de Medicina)
- Critérios de certificação em cirurgia robótica ginecológica da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)

