O Robô que Enxerga Melhor que Qualquer Bisturi
Voltar para Newsletter

O Robô que Enxerga Melhor que Qualquer Bisturi

18 de maio de 20265 min de leitura
Plataformas RobóticasOftalmologiaBroncoscopiaVatsRats
Ouça este artigo
0:006:17

A cirurgia de catarata é o procedimento cirúrgico mais realizado no mundo. Agora, a robótica está prestes a redefinir completamente a forma como ela é feita — e o que é possível alcançar dentro de um olho humano.

Quando a cirurgia ocular entrou na era robótica

Imagine sentar em um console a seis metros de distância de um paciente, mover os dedos suavemente sobre controles hápticos e, ao mesmo tempo, realizar incisões de precisão submilimétrica dentro de um olho. Não é ficção científica. É o que o renomado cirurgião Dr. David F. Chang demonstrou ao vivo no congresso da ASCRS — a maior sociedade de cirurgia de catarata do mundo — em abril de 2024, em Boston.

O procedimento foi realizado com o ORYOM, plataforma desenvolvida pela startup israelense ForSight Robotics, e marcou um divisor de águas: pela primeira vez na história, uma cirurgia completa de catarata foi executada com braços robóticos, de forma remota, em um olho animal. O futuro da oftalmologia acabou de bater à porta.

O que é a catarata e por que ela importa tanto

A catarata é a opacificação progressiva do cristalino — a lente natural do olho — e representa a principal causa de cegueira reversível no mundo. Com o envelhecimento populacional acelerado, o desafio cresce: a OMS estima que, até 2035, o número de pacientes com catarata no planeta dobrará. Hoje, de 600 milhões de pessoas afetadas globalmente, apenas cerca de 5% — 30 milhões — recebem tratamento cirúrgico por ano.

No Brasil, o cenário reflete esse paradoxo global: a demanda cresce, a fila do SUS é longa e a qualidade do procedimento ainda depende fortemente da habilidade manual de cada cirurgião. É exatamente essa equação que a robótica promete transformar.

O presente: o laser de femtossegundo como robótica assistida

Antes de falar do futuro, é preciso entender o presente. A cirurgia robótica de catarata já existe — e provavelmente já foi realizada em clínicas brasileiras de ponta, mesmo que o paciente não saiba disso pelo nome.

A técnica FLACS (Femtosecond Laser-Assisted Cataract Surgery), também chamada de cirurgia robótica de catarata, substituiu o bisturi manual em etapas críticas do procedimento. Um laser operando a um quadrilhão de pulsos por segundo — guiado por imagens de OCT em tempo real — realiza as incisões na córnea, a abertura da cápsula do cristalino e a fragmentação do núcleo da catarata com precisão impossível de ser replicada manualmente.

O sistema Lensar ALLY, por exemplo, combina o laser de femtossegundo com a facoemulsificação em uma única plataforma — eliminando a necessidade de movimentar o paciente entre salas, reduzindo riscos de contaminação e economizando até 8 minutos por procedimento.

O futuro: autonomia robótica total está chegando

Se o laser de femtossegundo representa a robótica assistida de hoje, o ORYOM da ForSight Robotics representa o amanhã. A plataforma combina braços robóticos miniaturizados, visão computacional avançada e algoritmos de IA que aprendem o estilo cirúrgico de cada médico ao longo do tempo — um conceito que seus criadores chamam de "autonomia colaborativa".

Nos bastidores do desenvolvimento, a empresa já concluiu mais de 200 procedimentos completos em modelos animais. Em junho de 2025, a ForSight concluiu uma rodada de investimento Série B no valor de US$ 125 milhões — sinal inequívoco de que o mercado global enxerga nessa tecnologia um potencial transformador comparável ao que a Intuitive Surgical representou para a cirurgia abdominal com o robô Da Vinci.

O co-fundador Dr. Joseph Nathan resume a visão da empresa com uma frase direta: "O robô é 10 vezes mais preciso que um ser humano. Estamos desenvolvendo um sistema completamente autônomo capaz de suprir a escassez de cirurgiões oftalmológicos no mundo."

O que muda para o cirurgião — e para o paciente

A pergunta que muitos cirurgiões fazem é legítima: a robótica substituirá o oftalmologista? A resposta, pelo menos no horizonte próximo, é não. O modelo que avança é o da semiautonomia supervisionada — o médico define o plano cirúrgico, confirma cada etapa e mantém controle total, enquanto o sistema robótico executa com a precisão que nenhuma mão humana consegue sustentar ao longo de horas de trabalho.

Para o paciente, as vantagens são concretas: menor variabilidade nos resultados, procedimentos mais seguros especialmente em casos complexos (olhos com anatomia atípica, catarata dura, pacientes com Parkinson ou tremor essencial) e — com a escala que a robótica permite — potencial democratização do acesso a cirurgias de alta qualidade mesmo em regiões com poucos especialistas.

O que observar nos próximos 24 meses

Com o aporte de US$ 125 milhões captado em 2025, a ForSight Robotics caminha para os primeiros ensaios clínicos em humanos. Paralelamente, plataformas como o Lensar ALLY seguem em expansão global. Para clínicas e cirurgiões brasileiros, o momento é de atenção e preparo: a curva de adoção que a laparoscopia robótica viveu na última década tende a se repetir na oftalmologia.

Referências

  1. ASCRS Annual Meeting, Boston (2024)
  2. Ophthalmology Times (2026)
  3. ForSight Robotics (forsightrobotics.com)
  4. ESCRS EuroTimes · Healio Ophthalmology
  5. BRASCRS Congresso 2024
  6. Educa Cetrus — Inovações na Cirurgia da Catarata (2024/2025)
  7. OMS — World Report on Vision
Newsletter

Conheça a nossa newsletter

Mais do que conteúdo, oferecemos direção. A newsletter da Cirurgia Robótica BR é o seu mapa contínuo do futuro da cirurgia, guiado por rigor científico, visão estratégica e compromisso com a humanização da medicina.